Thalma de Freitas no futuro do pretérito (updated)
Em 2007, Thalma de Freitas se uniu a Paulão 7 Cordas em um duo de voz e violão. Fizeram algumas apresentações baseadas em um repertório de sambas antigos cujo tema em comum era a decepção amorosa. Mais do que um show, era um recital. O violão elegante de Paulão era a base perfeita para a cantora dar vazão a todo o seu potencial como intérprete, como falamos aqui à época. Entusiasmada com o resultado, Thalma chegou a dizer que gravaria um disco naquele formato.
A gravação, porém, acabou nunca se concretizando. Thalma foi advertida por Kassin, seu companheiro na Orquestra Imperial, de que trilhando aquele caminho cairia na vala comum das cantoras-intérpretes devotas do samba. Se ela desejava realmente se afirmar como cantora em um cenário onde elas são abundantes, completou ele, deveria desenvolver um trabalho mais autoral e contemporâneo.
Kassin estava certo, ela concluiu, e daí surgiu o Casio Knights. Munida de um teclado, arriscando algumas programações eletrônicas, Thalma foi preparando um novo repertório com composições próprias e outras de seus pares na cena atual. Apresentou-se no exterior e fez alguns shows no Rio e em São Paulo para mostrá-lo ao público. A banda que a acompanhava era formada por Rubinho Jacobina no teclado, Kassin no baixo, Leo Monteiro na bateria e Gustavo Ruiz na guitarra. Um provável disco que resultasse desta combinação soava promissor. Mas também acabou não sendo gravado.
Na última sexta-feira Thalma fez um show na sala Sidney Miller, no centro do Rio, com uma banda totalmente reformulada. Tinha Felipe Pinaud na guitarra e na flauta, Marco Tommaso no piano e no Rhodes, Alberto Continentino no baixo, Renato Massa na bateria e participações especiais de Marlon Sette no trombone e Altair Martins no trumpete. Na mesma medida em que Mariana Aydar declara que o samba a persegue, como justificativa para não abandonar uma trilha na qual se sente confortável, pode-se dizer que o samba jazz persegue Thalma de Freitas. A espinha dorsal dos arranjos com essa nova formação se assenta no tripé piano, baixo e bateria, assim como no EP lançado em 2004 pelo selo Cardume.
O show começou estranho na noite de sexta, com uma versão jazzística de "Cordeiro de Nanã" em que Thalma parecia sair do tom propositalmente ao fim de cada verso. A má impressão inicial foi apagada logo em seguida por uma sequência de novas e boas canções. Primeiramente, um bolero composto em parceria com João Donato; depois, um número de raízes latinas cantado em portunhol; destacaram-se também "Uma Outra Qualquer Por Aí", canção até então inédita que a dupla Romulo Fróes e Clima fez para ela, e especialmente "Onde o Amor Termina", com letra do escritor angolano José Eduardo Agualusa (no vídeo acima em show no Cinemathèque, em janeiro deste ano). Esta, aliás, com sua poesia circular e sua bela melodia, evoca a melhor canção do EP, "Tranquilo", de autoria do anteriormente citado Kassin, e já se credencia à condição de clássico do futuro trabalho da cantora.
Paradoxalmente, os melhores momentos do show são fruto da tensão anacrônica que se cria entre os arranjos passadistas e as composições recentes, nada reverentes à tradição do samba jazz. O problema é que somente as músicas novas não são suficientes para compor o roteiro de uma apresentação de mais de uma hora. Assim, a parte final do show concentra-se em velhos standards do cancioneiro nacional, como "Dindi", por exemplo e aí o anacronismo constitui-se como algo negativo, pois Thalma se arrisca em canções que já mereceram melhores registros.
Durante o show, Thalma revelou que anda gravando algumas coisas com a banda que agora a acompanha. Ao que ela se referiu como uma demo deve resultar em um futuro álbum, a ser lançado no ano que vem, misturando suas personalidades de intérprete e compositora. As expectativas são as melhores, desde que ela tenha em mente as sábias palavras de Kassin. A participação de Jam da Silva - o mais moderno dos atuais compositores brasileiros - em cinco faixas já gravadas é um forte indício de que o samba jazz não será o limite.
Postado por PINDZIM@ http://pindzim.blogspot.com/ & http://www.youtube.com/user/Pindzim#p/u/0/tdYIxLD1b-g
Caio,
Tenho uma canção inacabada que se chama Futuro do Pretérito, hehehe, sempre vejo coinscidências como algo auspicioso.
Que bom que gostou do show, seus textos sobre a minha trajetória musical são dos meus favoritos.
Ontem mesmo estava pensando mesmo em te convidar, queria um feedback de como está soando nossa banda, quais músicas funcionam mais ou menos... que bom que voce foi, obrigada.
Então, a canção com o Agualusa se chama "Auriflama".
A saber, meus outros projetos musicais não foram engavetados, tanto 'Casio Knights' quanto 'Voz e 7Cordas' deverão ser gravados na sequencia deste 'A Filha do Maestro'.
Não faço idéia de como ou quando esses albuns serão lançados, minha relação com música continua sendo independente e livre.
No jornalismo de hoje é muito raro quem tem a sapiencia de escrever sobre os acontecimentos de forma imparcial e ainda ter estilo. Não perca isso, por favor.
Todo esse seu penúltimo parágrafo me parece um escorregão na elegância que costumo ler de voce.
Não tem problema nenhum não ter canção inéditas o suficiente pra preencher uma hora e vinte de show, ainda mais no caso de uma compositora em início de carreira, que declaradamente está no meio de um processo artístico. E eu avisei na hora que "Dindi" não estava no roteiro, a gente só tocou porque o show estava acabando e eu estava adorando aquele palco, queria ficar mais um pouco...é óbvio que eu não vou grava-la, mas posso cantar quando quiser, né?! O único risco que corro é de ser mal compreendida, mas isso não é grave. =)
Não ficou claro o "Paradoxalmente, os melhores momentos do show são fruto da tensão anacrônica que se cria entre os arranjos passadistas e as composições recentes, nada reverentes à tradição do samba jazz". Pode explicar melhor?
A propósito o samba jazz não me persegue, ele é a minha praia. Voce não comentou a intrumental "JT", que eu fiz pro Meirelles, não te chamou a atenção?
Ah, eu tenho a gravação do show, o Cordeiro de Nanã ficou péssimo mesmo, eu tava tomando uma surra daquele in-ear, desconcentrei, foi mal, desculpe!
Mais uma vez obrigada pela atenção dispensada, vou postar seu texto e esse email no meu blog,tá?!
Thalma,
você não pode imaginar o quanto me sinto gratificado pela sua atenção e mais ainda por saber que algumas das minhas opiniões dizem alguma coisa para vc. Esta resposta via email foi uma boa surpresa. Acompanho seu trabalho solo desde o show da época do lançamento do EP, no Humaitá pra Peixe, e acho que possivelmente não perdi nenhum desde então.
Enfim, feitas as delongas, tentarei ser mais claro a respeito do que quis dizer no penúltimo parágrafo. Tendo visto o show do Cinematheque em janeiro, imaginava que na última sexta a banda seria mais ou menos a mesma, com aquela pegada mais pop. Ao acordar, no sábado de manhã cedo, fiquei com vontade de escrever a respeito, saí direto da cama pro computador e me veio a analogia com a Mariana Aydar, samba/samba-jazz. Injusta, devo dizer agora, exatamente porque você não tem necessidade nem precisa se justificar, apenas segue o(s) seu(s) caminho(s). Quase arrisquei escrever que sua ligação com o samba jazz seria uma herança familiar, da parte do seu pai, mas poderia estar falando bobagem, já que não tenho um conhecimento aprofundado da obra dele.
O paradoxo, ao meu ver é o seguinte: você pega canções novas, recentes, como as suas e a do Romulo, por exemplo e as arranja com piano, baixo e bateria, mas não se trata "apenas" de uma renovação do samba jazz. Já não é mais algo facilmente rotulável, é uma coisa diferente. Foi assim com "Tranquilo", no EP, com "Auriflama" e a do Romulo agora, e com outras que eu deixei passar por não saber o nome delas. Aliás, tem uma outra que eu gostei muito mas não pude citar no texto por não saber como identificá-la. Finalizando, então: do anacronismo entre o samba jazz e estas músicas novíssimas, desvinculadas de quaisquer tradições, surge o futuro do pretérito ou o pretérito do futuro, quando duas pontas aparentemente distantes se aproximam pra criar uma coisa diferente e se vê a marca do autor, que no caso distingue vc de outros músicos contemporâneos, sejam os bons ou os maus. Tem muita cantora por aí que põem uma batida eletrônica no samba, um baixo distorcido no forró e acha que está inventando a roda.
Finalizando, sobre a parte deselegante. Não tenho nada contra haver músicas antigas no show. Mas, sinceramente, acho que esses super-clássicos, quando interpretados e arranjados de forma semelhante às gravações originais, agradam àquela parcela do público mais conservadora (a maioria, talvez), mas pouco acrescentam ao artista. Por outro lado, "Batuque", que vc cantava no show do EP, é sensacional, por ser uma pérola que vc desencavou do baú. Eu mesmo não conhecia. Depois de ouvir vc cantando corri atrás pra saber de quem era e paguei 50 reais pelo cd importado do Bebeto só por causa dela. E valeu a pena. O Voz e 7 Cordas era uma recriação de um repertório de clássicos em um formato diferente e pra mim é um espetáculo irrepreensível, dos mais belos que vi destes feitos para serem ouvidos em silêncio e com total atenção. E a própria Orquestra, quando põem guitarra, baixo e bateria no samba, recria o espírito anárquico do samba que hoje com certeza se perdeu. É a melhor "roda de samba" do Rio, porque apesar de a Lapa estar cheia delas, são todas mais ou menos iguais, com fiéis seguidores do mandamento do Paulinho.
Encerrando a longuíssima mensagem, minha preferência é trazer informações aos que acompanham o blog, mais do que ficar fazendo juízos de valor sobre o trabalho de vcs. Tentei fazer isso tomando o show como gancho e aproveitei pra tecer meus comentários. Então, desculpe-me a derrapagem. Acho um privilégio estar vivendo este momento da música brasileira e procuro fazer um registro, seja em texto ou em vídeo, retratando aqueles que a mim parecem relevantes. Obrigado pelas correções e espero que o próximo texto possa ser mais informativo e menos opinativo. Aproveitando, fica aqui um pedido: será que vc pode me mandar o set list da Funarte para eu colocar os nomes corretos das músicas no texto?
Fique a vontade para publicar o meu texto, o seu email e este também (melhor editar pra não cansar o leitor).
E, quando tiver novidades, nem preciso dizer que estarei interessado.
Abraço,
Caio Jobim
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Pindzim
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